Falar sobre a origem do tarot é muito mais do que investigar datas, lugares ou baralhos antigos. É percorrer um caminho que atravessa mitos, símbolos, jogos, arte, espiritualidade e história humana. O tarot nasce do encontro entre o imaginário coletivo e a necessidade profunda de compreender a vida, o tempo e os ciclos de transformação.
Assim, neste artigo, você vai conhecer a origem do tarot a partir de duas dimensões complementares: o mito de criação, que revela seu sentido simbólico mais profundo, e a linha histórica, que mostra como o tarot se desenvolveu ao longo dos séculos até chegar às formas que conhecemos hoje. Entender essa trajetória ajuda a tirar o tarot do campo do mistério inacessível e colocá-lo em seu lugar legítimo, o de uma linguagem simbólica viva, em constante atualização.

O nascimento do baralho de tarot
Em diversas versões do mito de origem do tarot, grandes sábios — ou hierofantes — se reúnem para discutir como preservar um conhecimento profundo da humanidade. Em algumas narrativas, são os próprios deuses que percebem a decadência humana, o esquecimento dos saberes essenciais e a necessidade de proteger esse conteúdo para o futuro.
As primeiras ideias de preservação passam por registros rígidos e duráveis, como gravar em pedra, em metais preciosos ou em suportes permanentes. No entanto, essas opções são descartadas por serem frágeis diante do tempo, da destruição ou do roubo. Também se cogita transmitir o conhecimento oralmente a um único homem, mas essa alternativa é considerada instável e limitada.
Os jogos como guardiões dos símbolos
Em algumas versões desse mito, a solução surge quando um dos sábios mais jovens propõe algo inesperado: esconder os grandes segredos nos jogos. Aquilo que fascina, vicia e encanta os humanos seria justamente o que garantiria a preservação do conhecimento. Os jogos não seriam abandonados; ao contrário, seriam mantidos e transmitidos por gerações.
Assim, os símbolos profundos da existência humana seriam acessíveis a todos, mas apenas compreendidos por aqueles dispostos a aprender a linguagem simbólica. Nesse mito, nasce o tarot, um sistema de imagens que guarda mistérios, arquétipos e ensinamentos sob a aparência de um simples jogo de cartas.
Esse mito revela algo essencial sobre a origem do tarot. Ele não precisa ser visto como um saber elitista ou fechado, mas um conhecimento disponível, que se revela a quem se aproxima com atenção, estudo e sensibilidade.
A origem histórica do tarot: do jogo lúdico à linguagem simbólica
Do ponto de vista histórico, é importante compreender que o tarot não surgiu completo nem com a função que conhecemos hoje. Ele foi se transformando ao longo do tempo, acompanhando mudanças culturais, tecnológicas e simbólicas da humanidade.
Assim, quando falamos da origem do tarot, consideramos principalmente a estrutura que caracteriza esse baralho. São 78 cartas, sendo 22 Arcanos Maiores e 56 Arcanos Menores, além da iconografia específica que se repete, com variações, ao longo dos séculos.

A Itália do século XV e a família Visconti
As evidências históricas mais consistentes apontam para o surgimento do tarot na Itália, por volta do século XV, especialmente na região de Milão. A família Visconti está profundamente ligada a essa origem. Apenas nessa região foram encontradas centenas de cartas distribuídas em diferentes conjuntos.
O Tarô Visconti di Modrone, encomendado em 1441 para celebrar o casamento entre Bianca Maria Visconti e Francesco Sforza, é um dos registros mais antigos. Esse baralho possuía 89 cartas, pois as figuras da corte masculinas tinham correspondentes femininas, o que demonstra um cuidado simbólico e artístico singular.
Posteriormente, surge o Tarô Visconti-Sforza, já com a estrutura mais próxima do que conhecemos hoje. Curiosamente, essas cartas não possuíam numeração nem nomes. Assim, designações como O Mago ou A Sacerdotisa só apareceriam mais tarde.
A evolução do tarot e o surgimento das imagens
Um marco fundamental na história do tarot é o Tarô Sola-Busca, criado por volta de 1470. Ele se diferencia dos baralhos anteriores por apresentar imagens ilustradas também nos Arcanos Menores, e não apenas nos Arcanos Maiores.
Essa inovação foi decisiva para o desenvolvimento simbólico do tarot, influenciando diretamente baralhos posteriores, como o Smith-Waite. A partir desse momento, o tarot começa a se afastar gradualmente de um uso exclusivamente lúdico e se aproxima de uma linguagem simbólica mais complexa.

Arte, nobreza e poder
Nos seus primeiros séculos, o tarot estava profundamente ligado à nobreza europeia. Muitos baralhos eram verdadeiras obras de arte, adornados com ouro e produzidos por artistas renomados. Isso tornava o tarot inacessível à maior parte da população.
Além de entretenimento, os baralhos funcionavam como demonstração de status, poder e sofisticação cultural. A origem do tarot, nesse contexto, está intimamente ligada à arte e à expressão simbólica das elites da época.
A imprensa e a popularização do tarot
Com a invenção da imprensa, entre os séculos XV e XVI, ocorre uma transformação profunda na circulação do conhecimento. A impressão de cartas se torna mais acessível, permitindo que o tarot se difunda para além da nobreza.
É nesse contexto que surge o Tarô de Marselha, na França. Com sua iconografia marcante e o uso de cores primárias, esse baralho se torna um dos mais conhecidos e utilizados durante séculos, consolidando imagens que até hoje influenciam a leitura do tarot.
Do jogo ao símbolo coletivo
A partir da popularização, o tarot passa a circular entre diferentes classes sociais e regiões da Europa. Ele deixa de ser apenas um jogo aristocrático e começa a assumir, pouco a pouco, um papel simbólico mais amplo, conectado ao imaginário coletivo.
A associação com o Egito e o nascimento do tarot esotérico
Em 1770, o intelectual francês Antoine Court de Gébelin entra em contato com o tarot e associa imediatamente suas imagens a conhecimentos do Egito antigo. Essa interpretação, embora sem comprovação histórica sólida, foi extremamente influente.
Em suma, grande parte da crença popular de que a origem do tarot é egípcia vem dessas associações feitas por Gébelin, que via nas cartas um livro simbólico de sabedoria ancestral.
Etteilla e o tarot como ferramenta esotérica
Pouco depois, Etteilla dá um passo decisivo ao criar o primeiro tarot concebido intencionalmente para fins esotéricos. Ele inclui nas cartas referências à astrologia, alquimia e saberes ocultos, inaugurando uma nova fase na história do tarot. Aqui, o tarot deixa definitivamente o campo do jogo e se afirma como uma ferramenta simbólica e divinatória.
As escolas francesa e inglesa do tarot
Nos séculos XIX e XX, o tarot se expande especialmente no contexto inglês, com nomes como Arthur Edward Waite, Pamela Colman Smith, Aleister Crowley e Frieda Harris.
Dessa fase, surgem baralhos fundamentais, como o Tarô Smith-Waite e o Tarô de Thoth, que estruturam a chamada escola inglesa, mais explicitamente esotérica, enquanto a escola francesa preserva vínculos mais diretos com os baralhos históricos.
A história do tarot continua: um saber vivo
Hoje, o tarot segue em constante atualização. Existem baralhos inspirados em mitologias, séries, animais, elementos da natureza e universos culturais diversos. Essa multiplicidade mostra que o tarot acompanha a humanidade em suas transformações simbólicas.
A origem do tarot, nesse sentido, não está apenas no passado. Ela se renova a cada nova criação, a cada leitura, a cada pessoa que se dispõe a dialogar com seus símbolos. Assim como no mito inicial, o tarot continua preservando conhecimento por meio daquilo que encanta, envolve e convida à reflexão. Ele permanece vivo porque fala da experiência humana, em qualquer época.
Compreender a origem do tarot é abraçar sua potência
Conhecer a origem do tarot é reconhecer que ele não é um instrumento místico isolado nem uma moda recente. Ele é um sistema simbólico que atravessou séculos, se transformou e continua respondendo às perguntas essenciais da existência humana.
Assim, ao entender sua história, seus mitos e sua evolução, o tarot se revela como aquilo que sempre foi, uma linguagem profunda, acessível e viva, capaz de iluminar caminhos para quem se dispõe a escutar.
Assista também ao vídeo: Você conhece a história do Tarot?